Quão sugestivo pode ser uma música se chamar “Bring Me To Life”? Ainda que a letra faça um bonito e complexo jogo de palavras para confundir o literal, a mensagem é bastante emocional e intensa, deixando claro que o remetente é alguém em busca de reencontro, alguém que sente falta e que precisa se reencontrar, sentir-se de novo pertencente a um lugar, ou quem sabe é alguém arrependido por errar?
Nunca será possível provar, ao menos até que Tiësto diga integralmente, mas já é muito fácil de analisar o cenário: grande nome do Trance no final dos anos 90, dividindo luzes do gênero com Armin Van Buuren, a maior referência ainda viva, o holandês atingiu o que qualquer artista pode almejar, os prêmios, a idolatria, a estabilidade, mas optou por sair do lugar que o consagrou.
Depois de 10, 12 anos sendo um band leader aos olhos do Trance, sua carreira transacionou às sonoridades mais comerciais, mais radiofônicas, mais em moda, naquele momento. Armin seguiu sendo, por fim sozinho, e isso é um fardo, quem sustentava uma base imensa de pessoas e um tipo de som que foi se colocando num espaço nichado, ainda que frequentado por heavy users.
A saída de Tiësto não foi exatamente leve ou bem explicada, ele mudou e não olhou pra trás, pra um rebanho sem rumo, e que ficou muito chateado pela ausência quase paternal que causou. Sua vida seguiu, seus sons mudaram, sua relevância nunca esteve em cheque, mas o amor escrachado do fã, esse perdeu tração, perdeu força e perdeu números, e o afeto sempre será uma linguagem difícil de ignorar.
Alguém foi feito de trouxa na história, e não foi ele.
Dono de tudo o que o dinheiro pode comprar, o holandês parecia caminhar ao fim de uma carreira vitoriosa, tocando nos palcos mais legais do mundo e fazendo o que a vida oferece de maneiro, mas será que basta? Sua nova música, com a qual começo este texto, diz assim: “Mas meu coração sempre esteve vazio, sinto que ele sempre soube que viveria para sempre, mas se tornaria apenas uma memória”.
Esse é o primeiro fato concreto e musical de um ato que começa na mudança total de seu perfil nas redes sociais e a volta da logomarca que marcou sua passagem de ouro pelo Trance. Um single com a sonoridade que deixou saudades e um show de retorno 100% como era nos áureos tempos, além da informação confirmada de um novo álbum se aproximando e que será integralmente como pediu-se ao longo de década e meia.
E não estranhe a reação resistente e dolorida dos que seguiram vivendo o Trance enquanto Tiësto foi passear. Como você se sentiria se fosse deixado de lado por mais de 10 anos? É fácil aceitar que o que você tanto ama deixou de existir por um tempo enorme e que agora seu coração segue disponível? A volta é um desafio para quem protagoniza e pra quem recebe, a mágoa existe e é digna.
Me parece um ato de necessidade do holandês, agora réu confesso da saudade. Que ele tenha dignidade de conquistar quem sentiu tanta saudade, mas que precisa derreter a chateação que se criou neste hiato. É uma reconciliação, e ela leva tempo.







