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AMÉMÉ fala sobre as conexões entre o Afro House e a música brasileira, suas raízes africanas e a importância de preservar a identidade do gênero

AMÉMÉ fala sobre as conexões entre o Afro House e a música brasileira, suas raízes africanas e a importância de preservar a identidade do gênero

A relação entre a música africana e a cultura brasileira vai muito além das semelhanças rítmicas. Para AMÉMÉ, essa conexão também se manifesta na forma como as pessoas vivem, dançam e se relacionam com a música. Nascido na África Ocidental, o DJ e produtor construiu uma identidade musical influenciada por suas origens africanas e pelas experiências que acumulou vivendo em cidades como Nova York e na Alemanha.

Reconhecido por sua atuação no Afro House, AMÉMÉ também desenvolveu uma relação próxima com o Brasil, país que frequenta regularmente e onde encontrou novas referências criativas. O samba, o funk brasileiro e artistas como Seu Jorge passaram a fazer parte de seu repertório de inspirações, influenciando inclusive suas produções mais recentes.

Em entrevista à Eletro Vibez, o artista fala sobre a importância de preservar as raízes culturais do Afro House em meio à expansão global do gênero, destaca a energia e a fidelidade do público brasileiro e revela que prepara edits de músicas nacionais para suas próximas apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Confira a entrevista completa:

Você enxerga conexões entre a música brasileira e o Afro House? Existem artistas ou gêneros brasileiros que inspiram você?

AMÉMÉ: O Brasil tem uma forte conexão com a cultura africana devido à história dos africanos escravizados que foram trazidos ao país por meio do tráfico de escravos. Essa influência está presente na música brasileira, incluindo o samba e o funk, assim como na religião e na cultura. O Afro House também está profundamente enraizado na cultura africana, então existe uma conexão muito clara.

Em relação aos artistas brasileiros que me inspiram, gosto muito do Seu Jorge. Acho que a música dele é crua, autêntica e sem concessões. Também amo samba, que é uma grande fonte de inspiração para mim.

Mais recentemente, descobri o funk brasileiro e suas raízes na cultura de rua. Passar tanto tempo no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, me ajudou a entender como a cultura, o estilo de vida e a música se conectaram para se transformar em um fenômeno global.

À medida que o Afro House continua crescendo, como os artistas podem preservar suas raízes culturais e sua identidade?

AMÉMÉ: É um desafio preservar a identidade cultural de um estilo musical quando ele cresce globalmente e passa a alcançar artistas de diferentes origens e culturas. As pessoas se inspiram nele e criam suas próprias versões. E, muitas vezes, a versão que ganha mais força no cenário internacional acaba liderando o movimento.

Acredito que os promotores de eventos precisam assumir o compromisso de contratar artistas dos lugares onde aquele som surgiu, em vez de focar apenas em quem está popular no momento.

Grandes plataformas musicais, como Beatport e iTunes, também têm um papel importante em dar visibilidade a esses artistas e educar o público sobre as origens do gênero.

No Afro House, vimos artistas sul-africanos que ajudaram a moldar essa sonoridade serem deixados de lado simplesmente porque não eram necessariamente conhecidos. Ao mesmo tempo, o público nem sempre tinha consciência de onde aquela música vinha.

Como indústria, precisamos assumir o compromisso de manter as pessoas informadas e mostrar as raízes desse som.

A música vai continuar evoluindo, isso é inevitável. Mas muitas vezes funciona como um ciclo: as coisas evoluem e, eventualmente, acabam retornando às suas origens.

Como suas experiências vivendo em outros países moldaram sua identidade musical?

AMÉMÉ: Nasci na África Ocidental e cresci ouvindo músicas de diferentes partes do continente, incluindo Ndombolo e Coupé-Décalé. Também tive contato com hip-hop e pop, por conta do alcance global desses estilos.

Mudar para Nova York foi uma transformação para mim. Foi lá que descobri a música eletrônica e explorei outros gêneros, incluindo o country. Depois, quando me mudei para a Alemanha, conheci a cena underground.

Minha música hoje reflete essas três partes da minha vida. Ela tem inspiração africana, mas também cria pontes entre sonoridades de diferentes lugares. É possível perceber a influência underground ao lado da percussão, que está profundamente enraizada na minha cultura africana.

Essa mentalidade de reunir diferentes sons vem de Nova York. É um lugar onde pessoas de todas as partes do mundo se encontram, e essa abertura me ensinou a misturar e combinar influências.

Eu levo um pouco de cada lugar onde vivi para a minha música. Conforme continuo viajando e colaborando com artistas de diferentes partes do mundo, essas experiências também moldam meu som e minha compreensão da música.

No fim das contas, a música é global. Estamos todos expressando a mesma mensagem em diferentes idiomas.

O que torna o público brasileiro único e como essa energia influencia seus sets?

AMÉMÉ: O público brasileiro é incrivelmente fiel. Quando as pessoas se conectam com você, elas se conectam com sua música, sua trajetória e sua marca, e continuam acompanhando você.

Percebo isso em todos os lugares por onde passo. Fãs brasileiros vêm falar comigo, dizem que me viram tocar no Brasil e continuam me apoiando ao redor do mundo.

Quando fui ao país pela primeira vez e senti aquela conexão com a cultura africana, isso me trouxe uma sensação muito forte de conforto e familiaridade.

A energia do público faz parte da cultura. Passo bastante tempo em festas locais, conhecendo os ritmos do samba e do funk e entendendo como as pessoas se conectam com a música.

As pessoas adoram dançar e se soltar, e essa energia naturalmente acaba influenciando meus sets.

O que os fãs brasileiros podem esperar das suas próximas apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo?

AMÉMÉ: É sempre um prazer voltar ao Brasil. Gosto de deixar espaço para a espontaneidade e permitir que eu mesmo seja surpreendido.

Não gosto de planejar tudo com antecedência, porque sempre existe um elemento surpresa quando toco no país.

Os fãs podem esperar, com certeza, muitas músicas novas. Meu tempo no Brasil me inspirou a trabalhar em vários edits de faixas brasileiras, então eles farão parte dos sets, ao lado de outras músicas nas quais estou trabalhando atualmente.

Quais novas sonoridades, colaborações ou caminhos criativos você gostaria de explorar em seus próximos projetos?

AMÉMÉ: Quero continuar explorando as conexões entre minhas raízes africanas e os sons que descubro durante minhas viagens.

Os ritmos brasileiros são uma grande inspiração para mim neste momento, e tenho interesse em incorporar essas influências à minha música de uma maneira que pareça natural.

Também adoraria colaborar com mais vocalistas, músicos e produtores de diferentes origens. Cada pessoa traz sua própria perspectiva, e essa troca pode levar uma faixa a lugares que você nunca teria imaginado sozinho.

Criativamente, quero me dar espaço para experimentar, seja com percussão, instrumentos ao vivo ou combinações inesperadas de sons.

O objetivo é continuar evoluindo, mas sempre mantendo a conexão com quem eu sou e criando músicas que as pessoas possam sentir.