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Falamos com Bengoxi, DJ e produtor que vem se firmando dentro do Afro House nacional

Falamos com Bengoxi, DJ e produtor que vem se firmando dentro do Afro House nacional

Há trajetórias que não cabem numa biografia convencional. A de Giovani Loss, o Bengoxi, é uma delas. Advogado há 24 anos, sócio do maior escritório empresarial do Brasil e eleito Melhor Advogado do Mundo em Energia pela Who’s Who Legal.

Aos 47 anos, decidiu que a música eletrônica também precisava da sua assinatura, e o resultado chegou logo de cara: seu primeiro EP, “Need It”, lançado pela RED ROOM em 2025, entrou no Top 10 de três charts simultâneos no Beatport.

Os bons resultados seguiram com os trabalhos seguintes. “Kuana” entrou no Top 100 de Afro House, assim como “Sometimes” e “Calavera” — essa, em especial, figurou em #11 no top 100 do gênero e foi a faixa mais vendida da Go Deeva no último ano. Em paralelo, suas faixas seguiram sendo emplacadas nos charts editoriais do Beatport, como Best New Afro House, Best New Hype Afro House, Weekend Picks, e Staff Picks.

O nome Bengoxi vem de Bengoshi, que em japonês significa advogado, uma escolha que diz muito sobre como Giovani enxerga a relação entre as duas carreiras. Na música, isso se traduz em um Afro House que não abre mão da profundidade emocional, influenciado pelas referências que o acompanham desde criança, de Tom Jobim e João Gilberto a Elis Regina e Djavan, e construído após seis anos de estudos sérios em produção musical. 

Agora, com “Mon Coeur” chegando pela House On Frame, recebendo suporte de artistas como Shimza e Themba, Bengoxi consolida uma identidade sonora que a EletroVibez quis entender melhor. Confira o bate-papo que tivemos com ele:

O nome Bengoxi vem de Bengoshi, “advogado” em japonês. Foi uma forma de não separar as duas identidades ou de afirmar que elas sempre fizeram parte do mesmo lugar? 

Bengoxi: Totalmente. “Bengoshi” significa advogado em japonês, e o nome surgiu justamente porque eu nunca quis criar um personagem desconectado da minha vida. Muita gente acha que existe o advogado de um lado e o artista do outro, mas para mim nunca funcionou assim. A música faz parte da minha vida desde criança e a advocacia virou minha profissão e uma enorme paixão também.

O Bengoxi nasceu dessa ideia de integração. Não queria esconder uma identidade para validar a outra. Pelo contrário. Queria mostrar que você pode ter uma carreira extremamente exigente e técnica e, ao mesmo tempo, manter um lado criativo muito forte. No fim do dia, tudo faz parte da mesma pessoa.

A advocacia e a música eletrônica parecem mundos completamente opostos. Na prática, o que uma carreira trouxe para a outra? 

Bengoxi: Eu achava que eram mundos mais distantes até começar a viver os dois de forma intensa. Hoje vejo muito mais pontos em comum do que diferenças.

A advocacia me ensinou disciplina, consistência e construção de longo prazo. Você não constrói uma carreira sólida em um escritório de advocacia da noite para o dia. A música também não. Tem muito trabalho que ninguém vê. Muito aprendizado. Muita repetição.

Por outro lado, a música trouxe algo muito importante para minha vida profissional: a criatividade. Produzir uma faixa é resolver problemas o tempo inteiro. Isso muda a forma como você pensa também no trabalho.

E existe um componente emocional importante. A música traz equilíbrio. Energia. Perspectiva. Acho que uma carreira acabou deixando a outra melhor.

Como foi esse processo de aprendizado para alguém que já tinha uma carreira consolidada? 

Bengoxi: Foi muito interessante porque me colocou de novo na posição de iniciante. E isso é extremamente saudável.

Quando você já está há muitos anos em uma profissão, existe um risco de entrar em piloto automático. A música me tirou completamente dessa zona de conforto. Tive que aprender software, produção musical, mixagem, masterização, estrutura de mercado, distribuição, branding, redes sociais.

E existe uma humildade muito grande em começar algo novo depois de tantos anos de carreira. Você percebe que evolução exige repetição, erro e persistência. Foi um processo muito desafiador, mas extremamente estimulante.

Você começou a tocar violão aos 7 anos e cresceu ouvindo Tom Jobim, João Gilberto e Elis Regina. Como essas referências da música brasileira aparecem no seu som hoje, especialmente dentro de um gênero como o Afro House?  

Bengoxi: Acho que aparecem muito mais no sentimento do que de forma explícita. Tom Jobim, João Gilberto e Elis tinham algo que sempre me marcou: sofisticação sem excesso. Emoção sem exagero. Espaço. Dinâmica. Musicalidade.

Mesmo fazendo Afro House, que tem outra linguagem, eu gosto de buscar esse lado mais orgânico, mais melódico e mais emocional. Gosto quando uma faixa cria atmosfera, conta uma história, cria conexão.

O Afro House tem muito elemento percussivo e de groove, mas eu tento trazer também textura harmônica, musicalidade e emoção. Acho que minhas referências brasileiras acabam aparecendo mais aí.

Seu primeiro lançamento, “Need It” pela RED ROOM, entrou no Top 10 de três charts do Beatport logo de cara. O que esse resultado significou para alguém que estava construindo uma carreira musical em paralelo a uma das mais consolidadas do direito empresarial brasileiro? 

Bengoxi: Foi muito especial e surpreendente. Trouxe uma validação importante de que o projeto tinha espaço para crescer. Quando você começa algo novo mais tarde e em paralelo a uma carreira consolidada, existe sempre aquela dúvida: será que faz sentido? Será que vai conectar?

Ver “Need It” entrar no Top 10 de charts do Beatport logo no começo mostrou que existia uma audiência se conectando com aquilo que eu estava construindo. Mas talvez o mais importante tenha sido perceber que você nunca fica velho para começar algo novo. Acho que muita gente acaba limitando os próprios caminhos por achar que existe uma hora certa. Minha experiência mostrou exatamente o contrário.

“Sometimes” faz uma releitura de “Levels” do Avicii dentro do Afro House, um clássico do EDM reinterpretado por uma ótica completamente diferente. Como surgiu essa ideia e o que você queria dizer com essa escolha? 

Bengoxi: O Avicii sempre foi uma referência enorme para mim pela capacidade de criar músicas extremamente emocionais e universais. “Levels” é um daqueles marcos geracionais da música eletrônica. Todo mundo que viveu aquela fase tem uma memória ligada àquela música.

A ideia não era recriar o original. Era reinterpretar uma emoção conhecida através de uma linguagem diferente. O Afro House tem uma profundidade e uma construção de atmosfera muito próprias. Achei interessante levar algo tão icônico para esse universo.

Tem também um elemento de respeito à história da música eletrônica. Acho bonito quando gêneros diferentes conversam entre si.

Agora falando sobre o seu novo single. De onde veio a inspiração para Mon Coeur e o que você queria que as pessoas sentissem ao ouvir essa faixa?

Bengoxi: “Mon Coeur” nasceu muito da ideia de construir emoção sem precisar explicar tudo com palavras. Queria uma faixa que tivesse energia de pista, mas que também carregasse sentimento. Algo que funcionasse tanto em um momento de festival quanto ouvindo sozinho no carro ou no fone.

A inspiração veio muito dessa mistura entre profundidade emocional e movimento. Gosto quando música eletrônica não é apenas sobre fazer as pessoas dançarem. É sobre fazer sentir alguma coisa. Se alguém ouvir “Mon Coeur” e criar uma memória própria com ela, acho que o objetivo já foi alcançado.

Agora com “Mon Coeur” oficialmente lançada no mundo, o que vem a seguir para o Bengoxi? Tem projetos, collabs ou direções sonoras que você quer explorar nos próximos meses? Obrigado! 

Bengoxi: Estou muito animado com o que vem pela frente. Tenho músicas novas chegando, algumas collabs em andamento e muita vontade de continuar evoluindo artisticamente.

Acho que o principal objetivo é continuar construindo uma identidade sonora cada vez mais clara. Continuar explorando o Afro House, mas sem me prender completamente a uma caixa. Gosto da ideia de misturar referências, experimentar coisas novas e deixar a música evoluir de forma natural.

No fim, o objetivo continua o mesmo do primeiro dia: fazer música que conecte pessoas e que tenha verdade por trás.