A estreia de Nuke’M na Sollares, em Salvador, ajuda a entender um artista que vem fazendo da imprevisibilidade uma escolha estética e musical.
Baiano e atualmente baseado em São Paulo, ele voltou à cidade com um set carregado de material novo, faixas inéditas e releituras pouco óbvias. A resposta da pista veio mesmo nos momentos em que ninguém parecia saber exatamente o que estava ouvindo.
Eu gosto de tocar coisas que ainda não estão gastas na cabeça das pessoas. Quando ninguém sabe exatamente o que vem depois, a pista fica mais interessante.”
Esse comportamento diz bastante sobre sua discotecagem. Nuke’M atravessa tech house, techno, house e nu-disco com naturalidade, costurando referências diferentes sem perder coerência nem personalidade. Os sets mudam bastante entre si, enquanto algumas características permanecem reconhecíveis: tensão, surpresa, humor, faixas novas e uma leitura de pista que valoriza curiosidade tanto quanto impacto.
A boca que virou símbolo visual do projeto ganhou uma relação quase natural com essa dinâmica. Depois da Sollares, Nuke’M chamou os registros da noite de little bites. A expressão combina com suas escolhas: pequenas mordidas na expectativa de quem está dançando, seja por uma inédita, por uma referência deslocada ou por um clássico reapresentado sob outra perspectiva.
Quero que a pessoa saia pensando em alguma música que nunca tinha ouvido antes. Se eu conseguir despertar essa curiosidade, o set funcionou.”
O mesmo olhar aparece fora da cabine. Games, anime, cultura pop, humor ácido e elementos mais sombrios atravessam a identidade de Nuke’M, que encontrou no creepy cool uma boa definição para seu universo visual: beleza estranha, neon sem contexto, sombras distorcidas e detalhes comuns vistos de um ângulo menos previsível.
Salvador ocupa um espaço particular nessa história. Foi onde ele cresceu e onde parte de seu repertório cultural começou a se formar. Anos depois, essa relação reapareceu também na música, com releituras oficiais de faixas de Daniela Mercury e Carlinhos Brown. Estrear na Sollares coloca essa trajetória novamente diante de uma pista da cidade, agora em outro estágio da carreira.
Em 2026, Nuke’M também passou pelo SuperAfter do D-EDGE, lançou “Chasing Echoes” com Darick Gyorgy e segue desenvolvendo o Twilight Zone, série criada para testar ideias, misturar referências e apresentar músicas que ainda estão fora do circuito mais óbvio.
É justamente esse gosto pelo imprevisível que torna seu momento interessante. Nuke’M está construindo reconhecimento sem depender de uma fórmula repetida de set, e sua passagem pela Sollares mostrou que a pista parece disposta a acompanhá-lo nessa direção.
Talvez seja esse o melhor motivo para prestar atenção nele agora: quando Nuke’M assume a cabine, existe sempre a sensação de que alguma coisa inesperada ainda pode acontecer.


