Avicii via edição

Psicanalista aborda saúde mental na música eletrônica e aponta: “Não espere enlouquecer ou colapsar para procurar ajuda profissional”

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Dando seguimento na nossa semana dedicada à saúde mental, a Eletro Vibez conversou com Paulo Unzer, doutor em Psicologia e professor de Psicanálise, para entender como essa abordagem especializada enxerga todo o contexto envolvendo o mundo da música e os casos famosos, além dos incontáveis anônimos, que se afetaram de alguma forma por problemas de ordem psicológica.

Questionado pela reportagem sobre o senso geral de que a vida abarrotada de compromissos e com pouco tempo em família, sempre comentada pelos profissionais da indústria musical, é um fator preponderante para as histórias tristes como Avicii e i_o, Paulo explica que há um olhar mais amplo a ser levado em conta:

Como psicanalista, eu tendo a desconfiar das aparências. Um suicídio, por exemplo, dificilmente é causado por algo como ‘vida agitada e longe de casa’. Se fosse iniciar uma investigação clínica eu não assumiria que a causa do suicídio seja um desconforto circunstancial ocasionado pelo trabalho. Pessoas que trabalham com certas profissões sabem o custo pessoal que será cobrado. Eu me perguntaria: o que os impediu de parar aquilo que estava fazendo mal?”

Levando em conta o contexto pandêmico, citado por muitos como um desafio enorme para a manutenção da saúde mental, ele explicou que há sim um novo obstáculo a ser superado e quais as possíveis consequências:

Há um panorama psicopatológico criado pela pandemia. Falo sobre isso na minha conta do Insta e no meu novo canal do YouTube. Basicamente, a pandemia cria uma forma circunstancial de depressão e ansiedade. Pode levar ao suicídio? Sim. Mas um suicídio é só o último ato de uma longa e mal tratada patologia”.

Há uma compreensão pública que esses profissionais do entretenimento sofrem pela necessidade de aparentar uma alegria constante, de evidenciar satisfação todos os dias em suas apresentações. Ele mostra que isso é sim problemático.

Felicidade como imperativo é uma fonte poderosa para a infelicidade real. Por que? Porque ninguém gosta de imperativos. Tudo que vem depois do verbo ‘tenho que…’ não costuma agradar. Pouco importa o que seja. Acho que em alguns meios (como o artístico) isso pode ser até mais insuportável.”

Por fim, aderindo à onda de ajudarmos uns aos outros, inclusive através do conhecimento e da disposição em contribuir, ele deixa um recado final para que as pessoas possam evitar maiores problemas.

Nada melhor do que tratar seus problemas adequadamente. Não espere enlouquecer ou colapsar para procurar ajuda profissional. Deixe sua onipotência de lado e vá procurar ajuda.”

Paulo Unzer é Psicanalista e Doutor em Psicologia pela USP e atua clinicamente em consultório particular e no centro médico do Hospital Santa Isabel, tanto na modalidade presencial quanto online. Dedica-se também a docência no ensino superior e nas formações clínicas do Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas. Para acompanhar o seu trabalho, confira seu Instagram e Youtube.