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Na foto: i_o

Saúde Mental na cena eletrônica: tá difícil pra c*ralho, mas a gente pode suavizar o problema

Eu nunca me imaginei num estado desses. Ao mesmo tempo que o ambiente profissional tem evoluído, a mente não acompanha como outrora. Olho pro lado e vejo que estamos todos um passo além do esgotamento. Que coisa inacreditável foi o nosso 2020. Presos, enclausurados, com medo, sem prazo, sem paz. Sem data pra acabar. Sem ideia do que seria amanhã e, nessa incerteza, mudamos de ano. Pense só. 

No começo da pandemia, parecia um bloqueio temporário e teve lá seu charme. Todos os dias, quase toda hora, tinha um bom set e um bom DJ tocando de graça para que nos divertíssemos. De certa forma, o fato novo agradou. E, na mesma proporção, saturou, cansou, aborreceu e abriu uma espiral do silêncio. A megalomania dos eventos online passou a consumir os profissionais e uma certa disputa aconteceu no lado dos fãs. Mais parecia uma guerra fria.

Eles pareceram tomados pela necessidade de apresentar algo incomum, espetacular e inovador durante uma época que só era preciso sobreviver. Sobreviver sem agenda, sem festivais, festas, aparições – dinheiro. Sobreviver com suas equipes, seus ganhos e compartilhamentos. Sobreviver sem poder afogar o mundo em um copo de cerveja com uma música gostosa ao entardecer. Sem poder fritar os neurônios por horas sem fim em busca de sossego – o mental. 

Se eles lançam uma música, questiona-se a qualidade, a data, a capa do single, se é um EP, se é um álbum, se é um single. Questiona-se o vocal, questiona-se a gravadora, a hora, o dia, a plataforma. Se faz show demais, se fez show de menos, se cobrou, se fez de graça, se no YouTube, se na Twitch. Ninguém se habituou a elogiar o esforço, o remar contra as más condições e as condições através das quais se produziu. E como fica a cabeça desse artista? A cobrança é onipresente.

Parte dele, parte de todos os lados. Um elogio é combustível, um emoji é atenção, é abraço, aplauso, carinho, força. Como a música também abraça cada um de nós que já riu sozinho ou chorou escondido com uma delas como trilha. Suscetíveis como nunca, as pessoas brigam mais e pensam de menos umas nas outras. Dia a dia, tem-se perdido para a insuficiência. Insatisfação plena e alma que se envenena. Pense aí, quantos se foram por perderem pros maus pensamentos? 

Nessa dividida, somos nós contra o mundo de problemas, doenças, dificuldades, finanças e descrenças. É tempo de olhar para o lado e dizer, messsssmo, se está tudo bem, mas não só. Insistir, questionar, ajudar sem ser solicitado, olhar para além do visual, entender além do óbvio. Uma pessoa em problemas emocionais não dirá que está com tal dificuldade. Não pedirá por auxílio. Se sua insistência resolverá, não sei, mas o que custa tentar? Uma conversa salva uma vida. 

Perdemos demais, já. A depressão tirou muita gente boa do caminho (do bem). Quantos Tim, quantos i_o, quantos Brunos e Letícias também não aguentaram. Quanto talento se foi, quanta alegria se perdeu. A saúde mental não é um momento ou uma opção, é uma necessidade em todo e qualquer campo. A música, a maior das artes individuais e de criação, é o campo no qual as pessoas demandam mais de si e a partir da qual mais se perdem. Não podemos mais. 

Cuide de si, cuide dos seus, cuidemos de todos nós.