Após dividir palcos com nomes ligados a Deep Purple, Black Sabbath, Judas Priest e outras referências do rock e metal, Mateus Paiva, artista de Limeira leva a experiência com o contrabaixo para produções autorais guiadas pelo groove e pelas frequências graves
Antes de construir linhas de baixo dentro de um software de produção, Mateus Paiva passou décadas sentindo o grave diretamente nas cordas de um contrabaixo. Natural de Limeira, no interior de São Paulo, o músico chega à cena eletrônica carregando uma trajetória pouco convencional para um produtor de Tech House, construída em palcos ao lado de importantes nomes do rock e do metal mundial.
Ao longo de sua carreira como contrabaixista, Mateus abriu shows e tocou com artistas como Glenn Hughes, conhecido por sua passagem pelo Deep Purple, Tim “Ripper” Owens, ex-Judas Priest, Vinny Appice, que integrou Black Sabbath e Dio, Doug Aldrich, ex-Whitesnake e Dio, Warrel Dane, do Nevermore e Sanctuary, além de Andre Matos e da banda Testament.
Essa experiência não ficou para trás quando Mateus decidiu entrar na música eletrônica. Pelo contrário. Tornou-se justamente a matéria-prima de sua nova identidade artística.
Quando o silêncio dos palcos abriu uma nova porta
A mudança começou durante a pandemia. Com shows e ensaios interrompidos, Mateus comprou sua primeira controladora com uma intenção inicialmente simples: continuar tocando dentro de casa.
O que poderia ter sido apenas uma alternativa temporária rapidamente se transformou em um novo caminho artístico. O contato com a música eletrônica despertou seu interesse pela engenharia de áudio, design sonoro e produção musical. Aos poucos, a lógica das cordas deu espaço aos sintetizadores, plugins e ferramentas digitais, sem apagar a experiência acumulada durante anos como instrumentista.
A transição aconteceu de maneira orgânica. Se no rock o baixo funciona como uma ponte entre ritmo e harmonia, na música eletrônica essa relação ganha ainda mais protagonismo. É justamente nessa região do espectro sonoro que Mateus encontrou um território familiar.
A pegada nas cordas, a pressão dos graves e o senso rítmico que lapidei com esses gigantes do rock vieram direto para o estúdio”, explica.
O contrabaixo como ponto de partida para o Tech House
A experiência como baixista também ajuda a explicar a maneira como Mateus constrói suas produções. Em vez de enxergar o grave apenas como mais um elemento dentro do arranjo, o artista trabalha as linhas de baixo como parte central da identidade de cada track.
Sua proposta aproxima a atitude e a organicidade adquiridas no universo dos instrumentos de uma estética voltada ao Tech House, com atenção especial à pulsação, ao ataque das notas, à dinâmica e ao espaço ocupado por cada elemento.
O objetivo é chegar a um som que tenha peso sem se tornar excessivamente carregado.
Busco o equilíbrio exato entre densidade e espaço. Uma sonoridade com graves musculosos e presentes, mas onde o arranjo respira com texturas envolventes, dinamismo refinado e transições fluidas”, define.
Essa relação entre peso e espaço funciona quase como uma continuação da experiência de uma banda. Nem sempre tocar mais significa soar maior. Muitas vezes, é justamente o intervalo entre os elementos que permite que o groove apareça. Mateus transporta essa percepção para o estúdio eletrônico, buscando produções nas quais cada frequência tenha uma função clara.
“I Just Lose My Mind” apresenta essa nova assinatura
Um dos primeiros resultados dessa construção artística apareceu em “I Just Lose My Mind”, lançada pela Anthill Records. A produção combina vocais marcantes com uma linha de baixo densa e uma construção baseada em contrastes, traduzindo parte da experiência técnica acumulada pelo músico.
O lançamento também levou Mateus ao Top 100 do Hypeddit, resultado que marcou um dos primeiros movimentos de maior alcance de sua produção autoral dentro da música eletrônica.
A relação com a Anthill Records também avançou para os sets. Mateus foi responsável pela Anthill Signals #22, sessão oficial da label posteriormente catalogada no 1001Tracklists. O registro funciona como uma extensão de sua produção, apresentando as referências e a pesquisa musical que cercam o projeto para além das próprias tracks.
“La Escucha” abre o próximo capítulo
Agora, Mateus Paiva prepara o próximo passo dessa trajetória com “La Escucha”, prevista para chegar em 9 de outubro de 2026 pela Tsunami Recordz.
A nova produção aprofunda alguns dos elementos que passaram a definir sua assinatura, especialmente o trabalho de percussão, a construção do groove e, naturalmente, as linhas de baixo. A proposta é apresentar um estágio mais maduro dessa convergência entre a experiência de músico e a linguagem da pista.
Mais do que uma mudança de gênero musical, a trajetória de Mateus mostra como diferentes universos podem compartilhar fundamentos semelhantes. O instrumento mudou, assim como o ambiente e as ferramentas, mas ritmo, dinâmica, harmonia e impacto continuam no centro do processo.
Depois de décadas construindo graves ao lado de guitarras e baterias, Mateus passou a esculpi-los dentro do estúdio. E é justamente nessa interseção entre a experiência analógica e as possibilidades da produção eletrônica que o artista busca construir seu espaço.
Com novas produções autorais em desenvolvimento, o próximo período será dedicado à exploração de timbres analógicos, linhas de baixo cada vez mais características e à consolidação dessa identidade dentro da música eletrônica. Se a primeira controladora surgiu como uma resposta ao silêncio imposto pela pandemia, o caminho aberto por ela agora aponta para uma fase em que Mateus Paiva pretende fazer justamente o contrário: ocupar cada vez mais pistas com o peso de sua própria assinatura.


