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Entrevista O que você não sabe sobre ‘Favela’, track de Maddix, e sua conexão com o Brasil

Entrevista: O que você não sabe sobre ‘Favela’, track de Maddix, e sua conexão com o Brasil

Para o holandês, não há nada como a energia das pistas do Brasil – e ele quer sentir essa energia mais vezes após apresentações no Tomorrowland e no M.E.G.A.

Antes mesmo de pisar no Brasil, o DJ e produtor Pablo Rindt – que você provavelmente conhece como Maddix – já começava a criar o que viria a ser sua homenagem ao país e que seguia a tendência global de popularização da cultura nacional.

Em entrevista para a Eletro Vibez, o artista contou sobre seu processo criativo para ‘Favela’, os bastidores da track, o que ele acha do país e algumas das suas opiniões sobre a cena de techno.

Em toda a sua carreira, o holandês jamais tinha pisado em solo brasileiro, nem para tirar férias, nem para uma gig. Tudo mudou em outubro de 2025, quando ele fez duas apresentações no Tomorrowland Brasil e, então, finalmente deu aos fãs o que eles queriam.

Antes disso eu nunca tinha estado sequer na América do Sul. Eu estava super animado para finalmente ir para o Brasil e ver os meus fãs, conhecê-los, porque sei que havia muita gente esperando por mim. Foi um momento incrível. O festival em si [Tomorrowland], a energia e o público foram simplesmente insanos. Eu amei muito”, completa o artista, que fez duas apresentações no festival (uma no The Gathering e outra no mainstage).

Todo o processo criativo começou quando ele começou a procurar vocais brasileiros na hora de produzir – e então decidiu produzir algo especial para o festival. Questionado sobre o que vem à sua cabeça quando lembra de música brasileira, cita ‘muita percussão’, ‘vocais’ em um idioma diferente do que é usual para ele e algo ‘mais groovy’.

Essa também foi a razão pela qual comecei a fazer ‘Favela’. Eu estava procurando por alguns vocais brasileiros e aí tudo começou. E, claro, eu sabia que tinha que tocar no Tomorrowland Brasil, então pensei: ‘vou tentar fazer uma track para esse festival, focada na cultura brasileira’.

Na hora de começar sua pesquisa, Maddix estava buscando por ‘vocais de Brazilian Bass’ e então chegou aos vocais que usou para a track, que repetem ‘baile de favela’ e ‘nada vai me parar’ várias vezes. O artista mesclou a percussão que associa ao país com 160bpm, preservando a adrenalina que é recorrente em outras das suas produções.

Um detalhe importante é que é uma composição em sol maior, ou seja, algo não tão usual no techno, embora não seja uma vertente rigidamente classificada por tonalidade. Na prática isso dá um teor mais aberto e mais solar para Favela – é algo mais animado e mais distante das trevas, em jus à imagem colorida e enérgica associada ao Brasil.

Lançada pela EXTATIC Records no início de abril, a track já soma mais de 750 mil streams no Spotify, além de mais de 100 mil visualizações no YouTube. Neste início de maio, segue entre as 50 músicas mais bem ranqueadas na categoria ‘Peak Time / Driving’ do Beatport.

Os gringos entendem os vocais brasileiros?

A barreira do idioma faz com que na maioria dos países da Europa e também em outros continentes os vocais simplesmente não sejam compreendidos – ao menos em um primeiro momento. A não compreensão pode ser um convite para entender a cultura brasileira.

Para entender o conceito de favela, qualquer estrangeiro que gostou da track e deu um Shazam durante o set vai precisar também dar um Google para ler a letra e entender o significado. Isso porque não há tradução literal para a palavra.

‘Favela’ é uma palavra 100% brasileira e que foi exportada para outros países: a origem é de Canudos (BA), quando durante a Guerra de Canudos (há mais de um século) os soldados acamparam num morro na Bahia coberto por um arbusto espinhoso de flores brancas chamado faveleira, e então chamaram o lugar de Morro da Favela.

Quando a guerra acabou, esses mesmos soldados foram morar num morro no Rio de Janeiro e levaram o nome junto, batizando o lugar de favela. Até hoje o termo serve para designar comunidades que sofrem de mazelas sociais e são o berço de vários artistas – especialmente de rap e de funk. O Cambridge define “favela” como “uma área muito pobre e superlotada de uma cidade no Brasil”.

Apesar da barreira do idioma, Maddix conta que a música foi um sucesso imediato, com uma resposta ‘surpreendentemente boa’ das pistas, tanto no Tomorrowland Brasil quanto em outras ocasiões e em outros países.

É claro que, se as pessoas ainda não conhecem uma música, elas precisam se acostumar com ela. Algumas das minhas maiores músicas, como Gasoline, não tinham muita resposta quando ainda não tinham sido lançadas, mas no momento em que saíram oficialmente, as pessoas começaram a responder melhor.

Mas esta track, na verdade, é um dos destaques do set quase sempre. Não importa onde no mundo, as pessoas ficam malucas com ela, o que é muito legal de ver, mesmo que não consigam entender totalmente a letra”, conclui.

Brasil exporta brasilidade e importa techno

Maddix não foi o primeiro e não será o último a trazer vocais e sonoridade brasileira ao techno, e na verdade o faz quando cada vez mais ser brasileiro é algo visto como bonito globalmente – dentro e fora do universo da música eletrônica e do techno.

Uma busca por ‘Brazil Core’ no TikTok ou no Instagram mostra pessoas de diferentes nacionalidades usando itens de moda que fazem alusão ao Brasil. O verde e o amarelo passaram a aparecer mais vezes nos últimos anos em desfiles de moda na Europa ou nos EUA. Wagner Moura levou um Globo de Ouro para casa e foi indicado ao Oscar. Tudo isso reforça a ideia de que ser brasileiro pode ser algo glamouroso.

Dentro da música eletrônica, especificamente, os suportes crescem a cada mês e as collabs também. São mais músicas com vocais de brasileiros e mais músicas feitas por brasileiros tocadas mundo afora.

Somente em 2025:

Maddix agora se soma à lista de artistas que possuem brasilidades no seu setlist – e, mais do que isso, que produziram algo com elementos brasileiros e com um significado atrelado ao país.

Eu estou sempre procurando algo novo e é por isso que comecei isso; é divertido. Isso me desafia no estúdio a trabalhar de uma maneira diferente. Traz culturas diferentes para perto, que é o que a música faz: une as pessoas. Para mim é muito divertido e vejo outras pessoas fazendo isso também porque amam”, conta.

Para ele, o crossover com a cultura brasileira é algo certamente positivo e que ‘com certeza veio para ficar’. Aliás, para ele, energia e Brasil são praticamente sinônimos. Ele relata ter visto isso no Tomorrowland e em sua outra apresentação no Brasil, em São Paulo, no evento M.E.G.A., que ocorreu em abril deste ano. Ele foi categórico ao dizer o que é mais marcante no Brasil.

A energia. Falando muito sério, a energia. Acho que são as pessoas; elas são tão dedicadas. Elas ficam tão felizes em me ver, mas também felizes em ouvir a música e dão tudo de si. Isso não é algo que se vê muito. Em muitos outros países as pessoas estão apenas relaxando, curtindo a vibe, mas no Brasil elas vão com força total. Como artista tocando, é incrível; é a melhor sensação que se pode ter no palco”, conta.

Além disso, adiciona que o techno ainda tem espaço para crescer no Brasil e na América Latina.

Foi absolutamente insano [sobre o show em São Paulo]. A energia foi ótima e o techno ainda está se espalhando pelo mundo. Eu percebo isso na interação com os fãs, no online e agora nos shows; isso está muito, muito vivo e espero que continue assim.”

Maddix não saiu do big room para o techno – apenas nunca aceitou um único rótulo

Em uma entrevista para o site Hardstyle.com há cerca de um ano, Maddix declarou que gêneros não importam muito. O artista ficou conhecido pela sua reinvenção dentro do universo da música eletrônica, começando dentro do big room, uma sonoridade com drops grandiosos e que combina com mainstage de grandes festivais.

Em meados de 2015 ele lançou ‘Riptide’ pela Revealed Recordings, label de Hardwell. Mais tarde, em 2020, lançou ‘Ecstasy’, uma track emblemática e que mostra sua transição para um som mais pesado e voltado para o techno, embora ainda com resquícios do que ele produzia nos anos anteriores. Mais tarde lançou “My Gasoline”, com um bassline bem mais agressivo e que até hoje é um dos seus maiores hits.

Na entrevista para a Eletro Vibez ele endossa o que já disse em outras ocasiões, que o intercâmbio entre vertentes é saudável e que é mais importante construir pontes do que construir muros.

Antigamente, cada gravadora tinha seu gênero e era algo bastante específico. Quando mudei para um som com um pouco mais de influência do techno, pessoas ao meu redor diziam que eu nunca receberia suporte de artistas de techno porque eles não tocariam minhas músicas. Mas agora, todos tocam todos os gêneros, desde que gostem da faixa”, conta.

É o que eu queria fazer desde o início: misturar techno, trance, hardstyle e hardcore. Eu não me importo; se eu sinto a vibe da música, eu vou tocá-la e produzi-la. E vejo que o público está muito mais engajado assim agora. Não é mais aquela coisa de ‘precisa ser techno’; se você gosta da música, é bom. Tudo está se misturando e podemos explorar muitas combinações diferentes, o que torna mais divertido no estúdio e para tocar ao vivo”, conclui.

No momento ele está trabalhando em cerca de nove ou dez faixas. A próxima na fila sairá em duas semanas: ‘Coming Home’, que esteve no seu setlist do Ultra Music Festival de Miami neste ano.

Há coisas legais vindo, mas precisam de tempo. Depois de ‘Coming Home’ haverá um projeto especial com vários lançamentos que tenho tocado nos sets mais recentes e que as pessoas esperam há muito tempo.”

Se tivesse de escolher um artista ou banda fora do universo da música eletrônica para colaborar, revela que seria com a banda Red Hot Chili Peppers.

Não sei se aconteceria, não sei como combinaríamos. Para mim eles são lendas e amo as músicas deles”, conta, com o sorriso no rosto que foi usual em todas as respostas.

Um Raio-X do holandês que adorou o Brasil

Maddix nasceu em 1990, em Eindhoven, na Holanda. Ele é filho de uma professora de djembê, um instrumento de percussão africano.

Assim, cresceu com a música dentro de casa, aprendendo a tocar percussão, piano e bateria antes de descobrir o FL Studio no ensino médio e ingressar na HKU – University of the Arts Utrecht em 2013. À época, lançou seu primeiro single “Rampant” pela Oxygen, uma divisão da Spinnin Records.

Em 2015 teve grande ascensão com “Riptide”, lançada pela Revealed Recordings, gravadora de Hardwell. “Ecstasy”, que estava mais próxima do techno, lhe deu projeção para um caminho repleto de suportes de peso, como Amelie Lens e Deborah de Luca – mas ainda manteve o artista presente nos mainstages de grandes festivais como Tomorrowland, Ultra e EDC.

Em 2023 fundou sua própria label, a Extatic Records (XTTC), e lançou seu álbum de estúdio “Global Awakening” por ela um ano depois. Antes disso, em 2021, havia lançado “The Lost DNA Vol.1”, com 11 faixas, sendo algumas delas de outros artistas.

Seu Spotify soma mais de 500 milhões de streams e cerca de 4,7 milhões de ouvintes mensais. Maddix já assinou colaborações com Hardwell, KSHMR e Armin van Buuren.